MEOR · MTB Engenharia Econômica

Quando a chuva tira a moagem

Qual cana bisar?

A cana bisada rende mais, e por isso parece que a bis compensa. A conta mostra outra coisa: o que a chuva leva é a safra seguinte. E, quando há escolha de onde deixar a cana, a regra que se ouve no campo escolhe a cana errada.

1 · O que a chuva leva

A cana bisada não perde a cana: perde uma safra

Quando a chuva tira dias de moagem, parte da cana fica no campo para a safra seguinte: fica bisada. Ela cresce mais um ano e rende, em geral, uns 20 % a mais. Parece compensar. Não compensa.

Os 20 % a mais, colhidos um ano depois, valem quase o mesmo que a colheita normal valeria este ano: pagam o ano de espera, e pouco mais. O que se perde de verdade é a safra seguinte, que deixa de existir, e um ano a mais até a lavoura nova entrar.

A essa perda demos um nome: PEB, Perda Econômica da Bis (sigla nossa). É a diferença entre colher normalmente e bisar, cada caminho seguido do melhor ano de reforma. Nesta lavoura, cerca de R$ 106 por tonelada que ficou no campo, ou R$ 9.083 por hectare.

Como a perda de adiar e a de antecipar a reforma, a PEB é irrecuperável: a safra que a chuva levou não volta no ano que vem. A diferença é que ninguém a escolhe. Ela é imposta pela natureza.

0 50 100 150 200 R$ por tonelada que fica no campo, em 1º/1/2026 Colheita normal deste ano 85,5 t/ha, em 2026 R$ 197/t Colheita da cana bisada 102,6 t/ha (20 % a mais), em 2027 R$ 191/t A safra seguinte que some a soqueira de 2027, já sem os tratos R$ 91/t Um ano a mais até reformar a lavoura nova entra um ano depois R$ 9/t
Resultado
a PEB, em reais por tonelada que fica no campo, trazida a 1º de janeiro de 2026. As duas barras azuis quase empatam; a PEB é a soma das duas vermelhas com a pequena diferença entre as azuis: cerca de 91 + 9 + 6 = 106.
O que varia
só o caminho: colher normalmente este ano ou bisar.
O que fica fixo
a cana bisada rende 20 % a mais; custos e preços de referência da MTB; Taxa Mínima Atrativa de Retorno (TMAR) de 25 % ao ano, real; nenhum custo extra com a bis (um inseticida a mais, se houver, soma-se à perda).
A lavoura
os custos e a curva de queda de uma lavoura real de 6º corte, com vinhaça, numa fazenda paulista, com 85,5 t/ha esperadas para 2026.

2 · Qual cana bisar

A mais barata de bisar é a lavoura que já seria reformada

O que se ouve: se a bis dá 20 % a mais, é melhor bisar a melhor cana, porque 20 % de 100 t/ha é mais do que 20 % de 60 t/ha.

O que a conta mostra: a regra olha só o que a bis acrescenta e esquece o que ela tira, a safra seguinte. E essa safra também é maior na cana melhor.

A cana fraca é a mais cara de bisar por tonelada: a perda por hectare cai pouco com a produtividade e se divide por menos toneladas. A mais barata é a lavoura produtiva que está no ponto de reforma, a melhor entre as que já seriam reformadas este ano: depois da bis ela sai, e a soca seguinte, que pode sofrer, nem chega a existir.

A cana boa e nova só é barata de bisar se a soca seguinte não sofrer. Se sofrer, como já se viu no campo depois de uma bis, ela vira das mais caras.

Quando a chuva tira a moagem, a restrição é de toneladas. Por isso a régua certa é o custo por tonelada que fica no campo, e não por hectare.

0 40 80 120 160 200 240 40 60 80 100 120 140 produtividade da cana que fica no campo, t/ha PEB, R$ por tonelada ← já seriam reformadas este ano ainda esperariam → cana fraca: a mais cara a mais barata: na divisa se a soca seguinte sofrer se a soca seguinte não sofrer

se a soca seguinte não sofrerse a soca seguinte sofrer, como já se viu no campo

Resultado
a PEB, em reais por tonelada que fica no campo, trazida a 1º de janeiro de 2026.
O que varia
no eixo horizontal, a produtividade da cana que fica no campo; nas duas linhas, o que acontece com a soca depois da bis. A faixa cinza marca as lavouras que, sem a bis, já seriam reformadas este ano.
O que fica fixo
a cana bisada rende 20 % a mais; custos e preços de referência da MTB; Taxa Mínima Atrativa de Retorno (TMAR) de 25 % ao ano, real; nenhum custo extra com a bis (um inseticida a mais, se houver, soma-se à perda).
A lavoura
a mesma lavoura do gráfico ao lado; só a produtividade muda.

O ano de reforma quase não muda

A colheita da cana bisada acontece em qualquer caso: reformando logo depois dela ou mantendo a soqueira mais um ano. O que é comum a todas as alternativas não decide entre elas. Por isso nem os 20 % a mais nem o custo de um inseticida a mais mexem no ano da reforma: mexem no valor.

Na prática, a lavoura que seria reformada este ano passa a ser reformada logo depois da colheita da bisada, um ano depois. E só isso.

Para o planejamento

A PEB não se escolhe, mas a exposição a ela, sim. A chance de um inverno chuvoso na região se mede, com a série de chuvas. Junto com as toneladas que ficariam expostas e a PEB de cada lavoura, dá um custo esperado que deveria entrar na conta de toda expansão de área e no plano de reforma.

E, quando houver escolha de onde deixar a cana, a ordem do gráfico serve: primeiro a lavoura produtiva que já seria reformada; por último, a cana fraca.

O que esta página não é

Não é um julgamento de quem bisou. A bis de 2026 foi imposta pelas chuvas fora de época que tiraram dias de colheita de boa parte do Centro-Sul.

Os valores em reais usam custos de referência e valem pela ordem de grandeza. Com os custos, o ATR e o histórico da sua usina, a conta passa a ser a sua; a ordem entre as canas tende a ficar.

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